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GRACILIANO RAMOS

o Pinheiro. E se a D. Engracia lhe deixasse a for­tuna, bom casamento, negocio magnifico! Não que me preoccupe exclusivamente com o dinheiro, pois se Martha fosse vesga e coxa, não a acceitaria por preço ne­nhum. Mas era bonita, e os bens da viuva davam-lhe encantos que a principio eu não tinha descoberto.

Tocava piano. Naquelle momento reconheci no piano um caminho seguro para a perfeição. Falava francez. Não havia certamente exercicio mais honesto que falar francez, lingua admiravel. Fazia flores de paraffina. Comprehendi que as flores de paraffina eram na realidade os unicos objectos uteis. O resto não valia nada.

Não seria difficil travar na igreja um namoro com ella, na missa das sete, e mandar-lhe, por intermedio de Casimira, umas cartas cheias de inflammações alam­bicadas, versos de Olavo Bilac e phrases extrangeiras, dessas que vêm nas folhas côr de rosa do pequeno Larousse. Talvez, com algum trabalho, conseguisse com­pletar para ella um soneto que andei compondo aos quinze annos e que teria sahido bom se não emperrasse no fim. Depois obteria umas entrevistas á noite, á janella, e, conversa puxa conversa, pregava-lhe, ao cabo duma semana, meia duzia de beijos. Ficavamos noi­vos, casavamos, D. Engracia morria. Imaginei-me pro­prietario, vendendo tudo, arredondando ahi uns qui­nhentos contos, indo viver no Rio de Janeiro com Martha, entre romances francezes, papeis de musica e flo­res de paraffina. Onde iria morar? Na Tijuca, em Santa Thereza, ou em Copacabana, um dos bairros que vi nos jornaes. Eu seria um marido exemplar e Martha uma companheira deliciosa, dessas fabricadas por poetas solteiros. Attribui-lhe os filhos destinados a Luiza, quatro diabretes fortes e expertos. Supprimi radicalmente Nicolau Varejão, ser inutil.