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GRACILIANO RAMOS

qual como Deus o fez, que a gente não é rapadura, para sahir tudo igual. Você viu esse anjo?

Torceu o caminho para não perturbar um noivado de cães. Entrámos no Quadro. Eu não tinha visto anjo ne­nhum. E que me queria dizer o amigo Pinheiro lá em baixo? O amigo Pinheiro não se recordava.

— Foi o emprestimo que me esquentou o sangue. Não ad­mitto que desconfiem de mim. Acabou-se, vou falar com o Monteiro.

Estacou:

— Ah! sim! a historia de hontem, esse infeliz que anda morrendo de fome.

— O sapateiro?

— O sapateiro. Vive quasi nú, uma indecencia! E immundo que faz nojo. Uma penca de filhos! Vamos ver se ajudamos esse desgraçado, que tem vergonha de pedir esmo­la. A mulher tisica, no catre, lançando sangue, homem!

Poz-se a caminhar, triste. De repente apontou a casa de D. Engracia, grande como um convento, defronte do arma­zem dos Teixeira:

— E se você casasse com a Martha?

Casar com a Martha? Recuei, desconfiado:

— Que interesse tem você nisso, Pinheiro?

— Interesse? Nenhum. Mas acho...

— O que não comprehendo é essa preoccupação de me que­rer amarrar á força. Já me deu tres vezes o mesmo conselho.

— E’ que desejo a sua felicidade, rapaz.

— E quem lhe disse que eu seria feliz casando com ella?

— Quem me disse? E porque não seria? A pequena é bonita, bem educada, toca piano, esteve no collegio das freiras. Onde se vai achar outra em melhores condições? Se aquella não lhe agrada, só mandando fazer uma de encommenda.