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GRACILIANO RAMOS

— Está bem, padre Athanasio, fica o resto para outro dia. Ande lá, Pinheiro, isto é quasi meia noite.

Isidoro levantou-se, vestiu o jaquetão preto, poz o cha­peo de grandes abas.

— Esperem ahi, bradou o vigario. Vamos deitar esse ne­gocio de reencarnação em pratos limpos. Vejam vocês o Pla­tão. Aquillo é coisa seria, ninguem pode contestar. Dizem vocês...

— Não dizemos nada, padre Athanasio. Boa noite.

E deixámos o excellente ecclesiastico remoendo Platão.

Andámos algum tempo em silencio, na rua mal iluminada. Para as bandas do quartel da policia um trovador afina­va o violão. No ceo negro uma coruja passou alto, piando.

— Diabo! exclamou Isidoro, supersticioso, estremecen­do. Não gosto de ouvir estes amaldiçoados gritos. Justa­mente por cima da casa do Silverio, que está de cama, esta peste voar, rasgando mortalha!

Levantou a golla, arrepiado, baixou a voz:

— Pensou no que lhe disse hontem?

— Hein? Não me lembro. E’ o emprestimo?

Tinhamos chegado ao fim da rua de Baixo, estavamos em frente ás balaustradas do paredão do açude. Tomámos pela direita, deixámos atraz a pracinha.

— Não, não é o emprestimo. Que horas são?

Consultou o relogio da usina electrica:

— Só onze? Julguei que fosse mais tarde. Vamos para diante, quebrar as pernas pelos buracos do Pemambuco Novo.

Olhei a frontaria da casa de Adrião, fechada. Hesitei receoso.

— Não ha ninguem, tudo deserto. Vamos dar um passeio, insinuou Isidoro.

Penetrámos cautelosamente no Pemambuco Novo, o bairro das meretrizes.