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GRACILIANO RAMOS

de suppor, hein? Estes diccionarios miudos não pres­tam. Faltava um pedaço da segunda pagina. E’ cavador! Parece que o eucalypto secca os pantanos. A gen­te abre e não encontra nunca o que procura. E dá belleza. Vem o sargento: “Quarenta linhas.” E’ cavador! é cavador!

— Quem é que é cavador, padre Athanasio? inqui­riu Isidoro com um sorriso que lhe mostrava os largos dentes brancos.

O director da Semana pregou nelle os grandes bugalhos dos olhos surprehendidos, sacudiu a cabeça com um gesto de nervoso e engrolou uma explicação:

— O advogado, homem, esse Barroca. Tambem você não percebe nada. Foram os artigos, João Valerio, aquelles artigos. E’ cavador! Deputado, hein? Não foi senão isto. Os artigos. Quem havia de suppor?

— Eu conheci logo que elle me mostrou os originaes, acudi. Aquillo não mette prego sem estopa. Não lhe invejo o gosto. Tanta chaleirice, tanta baixeza, por uma cadeira na camara de Alagôas! E’ um pulha. Antes ficasse aqui, explorando os matutos, que fazia melhor negocio. Um idiota.

— Está enganado, retorquiu Isidoro. Tem talento. Entra deputado estadual e sai senador federal. Vai lon­ge. Em tres annos será para ahi um figurão. Quem for vivo ha de ver. Intelligencia, e muita, é que nin­guem lhe pode negar.

O vigario, que mordia de leve os beiços grossos, passou a mão pela testa, arrancou uma idéa:

— Talvez seja boato. Não ha certeza. Era conve­niente dar uma noticia, mas não ha certeza.

— Ha, fez Isidoro. Foi o Neves que me contou. O Neves está no segredo da politica.

— Esse é outro, resmunguei. Você se dá com essa pustula?