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vessei a praça da Independencia, o antigo Quadro, tambem deserto, a campainha do cinema começou a bater. Demorei-me á esquina da padaria, vendo um cartaz encostado a um poste. De repente dei uma palmada na testa:
— O idiota sou eu! Ali ha interesse, ali ha cavação.
Descendo pela rua Floriano Peixoto, admirei o talento do Barroca.
Sim, senhor, é um alho, pensei. Faz seis annos que aqui chegou, pobre, sahido de fresco da academia, sem recommendações, com os cotovellos no fio e os fundilhos remendados. E lá vai furando, verrumando. Grande clientela, relações com gente boa! Construiu uma casa, comprou fazenda de gado e terra com plantações de café, collocou dinheiro nos bancos e veste-se no melhor alfaiate da capital. Improvisa discursos com abundancia de chavões sonoros, dança admiravelmente, joga o poker com arte, toca flauta e impinge ás senhoras expressões amanteigadas que ellas recebem com deleite. Tem recursos para reconciliar dois individuos que se malquistam, ficando credor da gratidão de ambos. Como advogado, sabe captar a confiança dos clientes e, o que é melhor, a confiança das partes contrarias.
— Boa tarde, doutor.
Era uma prova da pericia do Barroca: o administrador da recebedoria, que passava pela calçada fronteira, macilento, com a mulher de banda, enorme, apertada num vestido de xadrez.
Offereceram a Evaristo aquelle cargo de administrador. Rendimento pequeno. Agradeceu e indicou para o lugar um collega cheio de necessidades. Naturalmente ganhou com a indicação, pois os negocios lhe andaram sempre de vento em popa. E estava á bica para deputado estadual.
— Sim senhor, disse commigo. Deputado!