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GRACILIANO RAMOS

encosto da cadeira — que impertinencia! Até logo, adeus. Que descaramento!

Já agora, porém, era feio correr atraz delle para restituir-lhe a papelada. Desdobrei as tiras e li bur­rices consideraveis em honra do Mesquita, recheadas de adjectivos fofos. A familia do Mesquita, que ia en­troncar na de fidalgos lusos; a caridade do Mesquita, um largo rio de beneficios inundando Palmeira dos Indios; o pedaço de rua que o Mesquita andava a calçar, sem pressa; a roupa branca do Mesquita, o asseio do Mesquita, os banhos, as ensaboadelas, a barba escanhoada. Uma chusma de sandices.

— Vá lá. Isto não tira nem põe. Se fosse desaforo, podia render desgosto; como é adulação, se bem não fizer, mal não faz. Sempre vou ver se padre Athanasio quer publicar esta porcaria.

Era domingo. Eu tinha entrado em casa para es­crever algumas paginas no meu romance, e a tarde voa­ra, com as sabujices daquelle imbecil. Olhei o relogio: quatro horas.

Ia aguentar um jantar em casa do Victorino. Na ausencia de D. Josepha, aquillo é funebre.

E que negocio tinha commigo Isidoro, que me fôra pela manhã procurar á typographia?

Lá dentro arranjavam louça.

— Dia perdido. Vamos com esta cruz ao Victo­rino.

Cheguei á porta do corredor:

— Oh D. Maria José, o Pinheiro está ahi?

— Não, senhor. Venha para a mesa.

— Obrigado, D. Maria. Não espere por mim.

Ao sahir, reflecti com espanto na insensatez que Evaristo revelava engrossando o Fortunato. Que ma­luco! Empenhar-se para metter na Semana aquelles ra­papés indecentes!

A rua dos Italianos estava deserta. Quando atra-