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Evaristo recolheu-se um momento, disse com lentidão:
— Tem feito pouco, mas sempre tem feito. E se o apoiarmos, o senhor comprehende, se o estimularmos, fará muito mais. Foi por isso que tracei uns artiguetes... Sim, não falo em capacidade para administrar. Deixemos isto de parte. Mas os attributos moraes, pondere, os attributos moraes são de facto dignos de encomios. E aqui está o favor que venho pedir-lhe.
Metteu a mão no bolso e entregou-me uns papeis:
— Eu desejava obter a publicação dos artigos no jornal do vigario. Mas não me posso dirigir a elle. Foram intrigar-me: que sou atheu, livre pensador — calumnias. E’ um desaguisado que pretendo desfazer, pois nada me inspira mais respeito que o catholicismo. O papado, que instituição, o papado! Eu tenciono...
— Espere lá, doutor. Elogio ao Mesquita? Não convem. O Mesquita é uma besta.
— Não, senhor, é exaggero. Antes de tudo...
— Um quartau. Quando diz sim, balança a cabeça negativamente; quando diz não, affirma com a cabeça. Não ha no mundo inteiro um sujeito mais burro. E o doutor vem cantar loas ao Mesquita? Demais a mais padre Athanasio é levado do diabo...
— Porque? Não seja irreflectido nos seus julgamentos, senhor. Fale com o reverendo. Uma questão de interesse geral!
Eu ia desculpar-me, recusar, mas o bacharel proseguiu:
— Escrevi os artigos dum folego. Têm imperfeições, evidentemente. Não me sobra tempo para cultivar a lingua vernacula. Ahi só se aproveita a idéa, a forma é incorrecta. Emendem. E adeus.
Deixou-me espantado. Sim, senhor. Estava ali uma interessante maneira de forçar a gente a prestar um serviço. Loquaz, amavel, espichado, sem se apoiar no