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necessito a sua opinião a respeito dum assumpto que requer minucioso exame.
— Assim de importancia... ia eu interrompendo.
Mas Evaristo continuou, aprumado, com os olhos fixos em mim, movendo lentamente, num gesto de orador, a mão bem tratada, onde um rubi punha em evidencia o seu grau de bacharel:
— Em segundo lugar venho solicitar-lhe um obsequio.
— Perfeitamente. Vamos ver.
— O senhor se dá com o Fortunato?
— O padeiro? Dou-me. O Fortunato é bom homem. Na opinião de padre Athanasio...
— Não, não é o padeiro. O Mesquita, o Fortunato Mesquita, prefeito. O senhor se dá com elle?
— Com o prefeito? Que tenho eu com o prefeito? Isso é politica. Eu entendo de politica?
— O Fortunato é exemplar. Como funccionario é um modelo; como chefe de familia, um espelho.
Afagou o queixo largo, ficou algum tempo em silencio, esperando o effeito daquelle assucar todo. Depois tornou, e foi ahi que percebi que elle tinha dito tres vezes a mesma coisa.
— Não possue talvez uma intelligencia muito lucida, mas o coração é de ouro. O protector dos pobres, absolutamente desinteressado. Sem alludir á nobre parentela...
— Já sei. Elle diz que é bisneto de Mathias de Albuquerque, ou tataraneto. Vamos ao resto.
— Pois sim. Pareceu-me... (E’ sobre isto que o consulto. Expresse-me o seu pensamento com franqueza.) Pareceu-me obra meritoria demonstrar publicamente a gratidão do municipio...
— Ao Mesquita? Que fez elle pelo municipio, doutor?