Página:Graciliano Ramos - Cahetés (1933).pdf/32

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
22
GRACILIANO RAMOS

necessito a sua opinião a respeito dum assumpto que re­quer minucioso exame.

— Assim de importancia... ia eu interrompendo.

Mas Evaristo continuou, aprumado, com os olhos fixos em mim, movendo lentamente, num gesto de ora­dor, a mão bem tratada, onde um rubi punha em evi­dencia o seu grau de bacharel:

— Em segundo lugar venho solicitar-lhe um ob­sequio.

— Perfeitamente. Vamos ver.

— O senhor se dá com o Fortunato?

— O padeiro? Dou-me. O Fortunato é bom homem. Na opinião de padre Athanasio...

— Não, não é o padeiro. O Mesquita, o Fortunato Mesquita, prefeito. O senhor se dá com elle?

— Com o prefeito? Que tenho eu com o prefeito? Isso é politica. Eu entendo de politica?

— O Fortunato é exemplar. Como funccionario é um modelo; como chefe de familia, um espelho.

Afagou o queixo largo, ficou algum tempo em si­lencio, esperando o effeito daquelle assucar todo. Depois tornou, e foi ahi que percebi que elle tinha dito tres vezes a mesma coisa.

— Não possue talvez uma intelligencia muito lucida, mas o coração é de ouro. O protector dos pobres, absolutamente desinteressado. Sem alludir á nobre parentela...

— Já sei. Elle diz que é bisneto de Mathias de Al­buquerque, ou tataraneto. Vamos ao resto.

— Pois sim. Pareceu-me... (E’ sobre isto que o consulto. Expresse-me o seu pensamento com franque­za.) Pareceu-me obra meritoria demonstrar publicamen­te a gratidão do municipio...

— Ao Mesquita? Que fez elle pelo municipio, dou­tor?