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IV
— Entre, respondi sem saber quem batia.
Evaristo Barroca entreabriu a porta de manso:
— Ia sahir, seu Valerio?
— Não senhor, cheguei agora.
— Vinha roubar-lhe dez minutos, disse elle com uns modos excessivamente cortezes, de que não gosto. Mas se sou importuno...
— Importuno? Não, senhor. Entre p’ra ahi.
Retirei uma pilha de jornaes da cadeira, abri a janella que dá para a rua:
— Então, que é que ha?
Evaristo avançou com gravidade, poz o chapeo e a bengala sobre a mesa empoeirada, olhou com desconfiança a palha da cadeira e sentou-se, sem se recostar, com medo de sujar a roupa. Maneiras detestaveis.
Ia para seis annos que eu conhecia aquelle typo, encontrava-o quasi diariamente. Horrivel! Empertigava-se para largar trivialidades abjectas, e o peor é que só muito depois de as ter dito me vinha a comprehensão de que aquillo não valia nada.
— Vamos lá, doutor. Que é que ha? perguntei de novo.
— Ha isto, respondeu o visitante. Primeiramente