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GRACILIANO RAMOS

lia um romance francez; ou tocava piano; ou pensava indignada nos beijos que lhe dei no pescoço.

— Necessidade de mentir, doutor? objectou Paschoal.

— De mentir, de matar, de beber agua, de abraçar alguem, de roer as unhas, tudo é necessidade.

Puxei de novo o relogio. Sete horas. Porque não teria ella exposto ao marido o meu procedimento ruim? Compaixão. Inspirar compaixão, que miseria! Levan­tei-me:

— Com licença, meus senhores. Boa noite. Vou deitar-me.

— Deitar-se? Que diabo tem você para dormir tão cedo? exclamou Isidoro.

Acharam-me apathico e murcho. D. Maria José perguntou, solicita, se as comidas me desagradavam. Maçada! As comidas eram optimas, respondi, mas o estomago e a cabeça não me iam bem. O Dr. Liberato indicou um remedio. Agradeci e recolhi-me.

Deitei-me vestido, ás escuras, diligenciei afastar aquella obsessão. Inutilmente. Ergui-me, procurei pelo tacto o commutador, sentei-me á banca, tirei da gaveta o romance começado. Li a ultima tira. Prosa chata, immensamente chata, com erros. Fazia semanas que não mettia ali uma palavra. Quanta difficuldade! E eu suppuz concluir aquillo em seis mezes! Que estupidez ca­pacitar-me de que a construcção dum livro era emprei­tada para mim! Iniciei a coisa depois que fiquei orpham quando a Felicia me levou o dinheiro da herança, precisei vender a casa, vender o gado, e Adrião me em­pregou no escriptorio como guarda-livros. Folha hoje, folha amanhã, largos intervallos de embrutecimento e preguiça — um capitulo desde aquelle tempo!

Tambem aventurar-me a fabricar um romance his­torico sem conhecer historia! Os meus cahetés realmen­te não têm verosimilhança, porque delles apenas sei que