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D. Engracia lhe deixar a fortuna, observou o Dr. Liberato.
— Deixa, asseverou Isidoro. O Miranda me disse. O Miranda sabe. Herdeira rica, sim senhor. Porque não se engata com ella, João Valerio?
— Obrigado, respondi. Com um pae deste! E a carolice, os bentinhos, a fita azul... Antes a Clementina.
— O pae não existe, o pae está morto, pelas contas do doutor. A pequena é da D. Engracia, nunca viveu com elle. Bonita como o diabo. Eu, se não tivesse trinta e oito annos, um emprego tão besta, e um desconchavo no coração, atirava-me a ella.
Falaram novamente na Clementina, coitada, nos ataques que a fazem morder, rasgar, despedaçar. O Dr. Liberato receava que aquillo acabasse em loucura.
— E’ pena que não lhe arranjem um homem.
— Um homem? Credo! Pois o doutor queria dar um homem á moça? E isso lhe traria saude?
— Talvez trouxesse.
Citou auctores, empregou termos arrevezados e a conversa morreu com tres respeitosas inclinações de cabeça.
— Porque será que elle inventa sempre essas historias? murmurou Isidoro Pinheiro.
Tirei o relogio impaciente. Que haveria áquella hora em casa de Adrião?
— Elle quem? O Nicolau?
— Sim, o sargento Cunha.
— Necessidade, explicou o doutor. Com certeza julga que os outros o tomam a serio. Em todo o caso tem muita imaginação.
Que estariam fazendo na sala do Teixeira? Elle, com a calva brilhando sob um foco electrico, o beiço cahido, a palpebra meio cerrada, os oculos na ponta da venta, percorria a parte commercial dos jornaes. Luiza
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