Página:Graciliano Ramos - Cahetés (1933).pdf/27

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
CAHETÉS
17

D. Engracia lhe deixar a fortuna, observou o Dr. Liberato.

— Deixa, asseverou Isidoro. O Miranda me disse. O Miranda sabe. Herdeira rica, sim senhor. Porque não se engata com ella, João Valerio?

— Obrigado, respondi. Com um pae deste! E a carolice, os bentinhos, a fita azul... Antes a Clemen­tina.

— O pae não existe, o pae está morto, pelas contas do doutor. A pequena é da D. Engracia, nunca viveu com elle. Bonita como o diabo. Eu, se não tivesse trinta e oito annos, um emprego tão besta, e um desconchavo no coração, atirava-me a ella.

Falaram novamente na Clementina, coitada, nos ataques que a fazem morder, rasgar, despedaçar. O Dr. Liberato receava que aquillo acabasse em loucura.

— E’ pena que não lhe arranjem um homem.

— Um homem? Credo! Pois o doutor queria dar um homem á moça? E isso lhe traria saude?

— Talvez trouxesse.

Citou auctores, empregou termos arrevezados e a conversa morreu com tres respeitosas inclinações de cabeça.

— Porque será que elle inventa sempre essas his­torias? murmurou Isidoro Pinheiro.

Tirei o relogio impaciente. Que haveria áquella hora em casa de Adrião?

— Elle quem? O Nicolau?

— Sim, o sargento Cunha.

— Necessidade, explicou o doutor. Com certeza jul­ga que os outros o tomam a serio. Em todo o caso tem muita imaginação.

Que estariam fazendo na sala do Teixeira? Elle, com a calva brilhando sob um foco electrico, o beiço cahido, a palpebra meio cerrada, os oculos na ponta da venta, percorria a parte commercial dos jornaes. Luiza

2