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— Olhe aquilo, veja que prédio. Vale vinte contos. Pedra e madeira de lei. E terras, cada zebu de trinta arrôbas, libra esterlina por desgraça, fortuna grossa, meu filho, e tudo da Marta, que o Miranda me contou. Atraque-se com a moça.
Não contive o riso. Estava êle certo de que a Marta Varejão aceitava o arranjo?
— Porque não? Que diabo pode ela querer mais? Você é bem apessoado, tem boas relações, sabe escrituração mercantil e um bocado de aritmética. Oh! demônio! Lá se apagou a luz.
Chegámos à rua dos Italianos. À porta da pensão, quando ia introduzir a chave na fechadura, ouvi rumor lá dentro. E Isidoro Pinheiro soprou-me ao ouvido:
— Espere aí, não abra agora.
— Que é?
— O Pascoal que vai entrar no quarto de d. Maria. É bom demorar um pouco.
VI
NO ESCRITÓRIO dos Teixeira, passando para o razão os diversos a diversos em bonita letra apurada, pensei naquela insistência de Isidoro.
É um ofício que se presta às divagações do espírito, êste meu. Enquanto se vão acumulando cifras à direita, cifras à esquerda, e se enche a página de linhas horizontais e oblíquas, a imaginação foge dali. Organizar partidas e escrever a correspondência comercial são coisas que a gente faz brincando. E para molhar o papel de sêda, enxugá-lo, pôr a factura ao lado, apertar o livro na prensa não é necessário esfôrço de pensamento. Dedicava-me às minhas ocupações singelas — e as idéias esvoaçavam em redor de Marta Varejão.
Realmente não era feia, com aquêle rostinho moreno, grandes olhos pretos, bôca vermelha de beiços carnudos, cabelos tenebrosos, mãos de mulher que vive a rezar. E alta, airosa, simpática, sim senhor, óptima fêmea. Se ela me quisesse, eu não tinha razão para considerar-me infeliz.
Queria. Na segunda-feira do carnaval, defronte do cinema, fôra muito amável comigo. Olhadelas, sorrisos, um provérbio embaraçado, em francês. Aquilo prometia. Estava acabado, ia atirar-me a ela, como diz o Pinheiro. E se a d.