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Subimos o alto dos Bodes. Isidoro Pinheiro deitou fora a ponta do cigarro, deu um trambolhão, agarrou-me um braço e berrou:
— Que lembrança a sua de vir passear, com uma noite assim, neste inferno!
Depois, calmo, já perto da igreja do Rosário, na indecisa claridade que vinha da rua de Cima:
— Boa caminhada, sim senhor, isto por aqui é pitoresco. Que fim terá levado a Maria do Carmo? Gosto dela. Se não fôsse tão descarada... Enfim cada qual como Deus o fêz, que a gente não é rapadura, para sair tudo igual. Você viu êsse anjo?
Torceu o caminho para não perturbar um noivado de cães. Entrámos no Quadro. Eu não tinha visto anjo nenhum. E que me queria dizer o amigo Pinheiro lá em baixo? O amigo Pinheiro não se recordava.
— Foi o empréstimo que me esquentou o sangue. Não admito que desconfiem de mim. Acabou-se, vou falar com o Monteiro.
Estacou:
— Ah! sim! a história de ontem, êsse infeliz que anda morrendo de fome.
— O sapateiro?
— O sapateiro. Vive quási nu, uma indecência. E imundo que faz nojo. Uma penca de filhos! Vamos ver se ajudamos êsse desgraçado, que tem vergonha de pedir esmolas. A mulher tísica, no catre, lançando sangue, homem!
Pôs-se a caminhar, triste. De repente apontou a casa de d. Engrácia, grande como um convento, defronte do armazém dos Teixeira:
— E se você casasse com a Marta?
Casar com a Marta? Recuei, desconfiado:
— Que interêsse tem você nisso, Pinheiro?
— Interêsse? Nenhum. Mas acho...
— O que não compreendo é essa preocupação de me querer amarrar à fôrça. Já me deu três vezes o mesmo conselho.
— É que desejo a sua felicidade, rapaz.
— E quem lhe disse que eu seria feliz casando com ela?
— Quem me disse? E porque não seria? A pequena é bonita, bem-educada, toca piano, esteve no colégio das freiras. Onde se vai achar outra em melhores condições? Se aquela não lhe agrada, só mandando fazer uma de encomenda.
Interrompeu-se, bateu-me no ombro, exclamou com admiração e energia, quási engasgado: