Página:Graciliano Ramos - Caetés (1947).pdf/94
— Deve ser com i. Ou com y. Uma das duas, penso eu. O y sempre é mais bonito. Para que eucalipto?
— Para plantar na beira do açude, explicou o vigário. Um conselho ao prefeito. Faltava um pedaço da segunda página.
Ajeitou a volta, abotoou a batina, passou o lenço pelo rosto vermelho e suado, coçou o queixo enorme, enterrado entre os ombros, que lhe chegam quási às orelhas, e atirou de chofre uma das suas falas embaralhadas:
— Pois, meninos, não foi senão isto. Quem havia de supor, hem? Êstes dicionários miúdos não prestam. Faltava um pedaço da segunda página. É cavador! Parece que o eucalipto seca os pântanos. A gente abre e não encontra nunca o que procura. E dá beleza. Vem o sargento: “Quarenta linhas.” É cavador, é cavador.
— Quem é que é cavador, padre Atanásio? inquiriu Isidoro com um sorriso que lhe mostrava os largos dentes brancos.
O director da Semana pregou nêle os grandes bugalhos dos olhos surpreendidos, sacudiu a cabeça com um gesto de nervoso e engrolou uma explicação:
— O advogado, homem, êsse Barroca. Também você não percebe nada. Foram os artigos, João Valério, aquêles artigos. É cavador. Deputado, hem? Não foi senão isto. Os artigos. Quem havia de supor?
— Eu conheci logo que êle me mostrou os originais, acudi. Aquilo não mete prego sem estôpa. Não lhe invejo o gôsto. Tanta chaleirice, tanta baixeza, por uma cadeira na câmara de Alagoas! É um pulha. Antes ficasse aqui, explorando os matutos, que fazia melhor negócio. Um idiota.
— Está enganado, retorquiu Isidoro. Tem talento. Entra deputado estadual e sai senador federal. Vai longe. Em três anos será para aí um figurão. Quem fôr vivo há-de ver. Inteligência, e muita, é que ninguém lhe pode negar.
O vigário, que mordia de leve os beiços grossos, passou a mão pela testa, arrancou uma idéia:
— Talvez seja boato. Não há certeza. Era conveniente dar uma notícia, mas não há certeza.
— Há, fêz Isidoro. Foi o Neves que me contou. O Neves está no segrêdo da política.
— Êsse é outro, resmunguei. Você se dá com essa pústula?
Mas Isidoro, que defende tôda a gente, defendeu o Neves: