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obras de graciliano ramos

— Êle quem? O Nicolau?

— Sim, o sargento Cunha.

— Necessidade, explicou o doutor. Com certeza jul­ga que os outros o tomam a sério. Em todo o caso tem muita imaginação.

Que estariam fazendo na sala do Teixeira? Êle, com a calva brilhando sob um foco eléctrico, o beiço caído, a pálpebra meio cerrada, os óculos na ponta da venta, percorria a parte comercial dos jornais. Luísa lia um romance francês; ou tocava piano; ou pensava indignada nos beijos que lhe dei no pescoço.

— Necessidade de mentir, doutor? objectou Pascoal.

— De mentir, de matar, de beber água, de abraçar alguém, de roer as unhas, tudo é necessidade.

Puxei de novo o relógio. Sete horas. Porque não teria ela exposto ao marido o meu procedimento ruim? Compaixão. Inspirar compaixão, que miséria! Levan­tei-me:

— Com licença, meus senhores. Boa noite. Vou deitar-me.

— Deitar-se? Que diabo tem você para dormir tão cedo? exclamou Isidoro.

Acharam-me apático e murcho. D. Maria José perguntou, solícita, se as comidas me desagradavam. Maçada. As comidas eram óptimas, respondi, mas o estômago e a cabeça não me iam bem. O dr. Liberato indicou um remédio. Agradeci e recolhi-me.

Deitei-me vestido, às escuras, diligenciei afastar aquela obsessão. Inùtilmente. Ergui-me, procurei pelo tato o comutador, sentei-me à banca, tirei da gaveta o romance começado. Li a última tira. Prosa chata, imensamente chata, com erros. Fazia semanas que não metia ali uma palavra. Quanta dificuldade! E eu supus concluir aquilo em seis meses! Que estupidez ca­pacitar-me de que a construção de um livro era emprei­tada para mim! Iniciei a coisa depois que fiquei órfão quando a Felícia me levou o dinheiro da herança, precisei vender a casa, vender o gado, e Adrião me em­pregou no escritório como guarda-livros. Fôlha hoje, fôlha amanhã, largos intervalos de embrutecimento e preguiça — um capítulo desde aquêle tempo.

Também aventurar-me a fabricar um romance his­tórico sem conhecer história! Os meus caetés realmen­te não têm verosimilhança, porque dêles apenas sei que existiram, andavam ns e comiam gente. Li, na escola primária, uns carapetões interessantes no Gonçalves Dias e no Alencar, mas já