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do no espaço... Não é por lá que vocês andam quando morrem? Se se calcular isso direito, o senhor está morto, seu Varejão.
Uma gargalhada estalou na sala. Nicolau Varejão, que ia pegar uma xícara de café, deixou pender a mão suja e embatucou. Depois, ressentido:
— Então, pelo que vejo, não acreditam.
— Acreditar? Acreditamos, afirmou o doutor. Mas sessenta anos é que o senhor não tem.
Nicolau baixou o carão trigueiro, coberto de marcas de varíola, ajeitou os óculos, tomou o café e declarou com lealdade:
— Parece que me enganei. Não foi na guerra do Paraguai, foi noutra mais velha. Não houve outra antes? Pois foi nessa. Tinha graça eu esquecer o que me aconteceu no exército! Eu até me chamava Cunha, o sargento Cunha. Está aí uma prova.
Levantou-se e saíu.
— Magnífico! exclamou Isidoro Pinheiro.
— E a filha é a herdeira mais rica da cidade, se a d. Engrácia lhe deixar a fortuna, observou o dr. Liberato.
— Deixa, asseverou Isidoro. O Miranda me disse. O Miranda sabe. Herdeira rica, sim senhor. Porque não se engata com ela, João Valério?
— Obrigado, respondi. Com um pai dêste! E a carolice, os bentinhos, a fita azul... Antes a Clementina.
— O pai não existe, o pai está morto, pelas contas do doutor. A pequena é da d. Engrácia, nunca viveu com êle. Bonita como o diabo. Eu, se não tivesse trinta e oito anos, um emprêgo tão bêsta, e um desconchavo no coração, atirava-me a ela.
Falaram novamente na Clementina, coitada, nos ataques que a fazem morder, rasgar, despedaçar. O dr. Liberato receava que aquilo acabasse em loucura.
— É pena que não lhe arranjem um homem.
— Um homem? Credo! Pois o doutor queria dar um homem à moça? E isso lhe traria saúde?
— Talvez trouxesse.
Citou autores, empregou têrmos arrevesados e a conversa morreu com três respeitosas inclinações de cabeça.
— Porque será que êle inventa sempre essas histórias? murmurou Isidoro Pinheiro.
Tirei o relógio, impaciente. Que haveria àquela hora em casa de Adrião?