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arte do diabo, um oficial puxou questão comigo e tirou a espada para me bater no lombo. E cá no meu lombo ninguém bate. Matei o oficial com uma estocada, porque eu era feroz e fugi para a República-Argentina. Depois larguei-me para a Europa, para a sua terra, seu Pascoal. Não é na Europa a sua terra?
— É isso mesmo. Continue.
— Pois eu estive lá, numa cidade grande. Onde foi que o senhor nasceu?
— Em Turim.
— Turim, exactamente. Morei trinta anos em Turim e ganhei o pão como tipógrafo. Não há uma tipografia em Turim? Aprendi o italiano. Ainda sei algumas palavras: Marconi, macarroni, massoni... Tudo em italiano acaba em oni. Terra boa, Turim. Cada pedaço de mulher!
— Morreu lá? perguntou o dr. Liberato.
— Não, tive saüdades da pátria. Voltei quando o crime prescreveu.
Em roda louvaram aquela memória admirável.
— O senhor devia publicar isso, aconselhou Isidoro Pinheiro. Um furo.
— Publicar? Não seria mau. A dificuldade é escrever. Idéias não me faltam, mas de gerúndio não entendo. Demais onde queria você que se fôsse publicar uma história assim? No jornal de um padre?
Todos lamentaram que a Semana, fôlha católica, não pudesse propagar aquela revelação tremenda.
— Que informações preciosas sôbre a história do Brasil! opinou o dr. Liberato.
— Que triunfo para o espiritismo! E que baque para as outras religiões! ajuntou Pascoal.
— Sem contar que a reputação do autor garantiria a veracidade do facto, acrescentou Isidoro. A sua vida... Diga aí um adjectivo, doutor.
— Impoluta.
— Impoluta... vá lá, vida impoluta. Que idade tem o senhor, seu Varejão?
— Sessenta, meu filho. Sessenta anos na corcunda. Tenho muito Janeiro.
— Como! bradou o dr. Liberato. Sessenta anos? Não é possível. Setenta com trinta... Caso o senhor tenha morrido e nascido logo que voltou da Itália, não pode ter mais de vinte e seis. E se ainda viveu algum tempo e andou vagan-