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romance não andava, encrencado miseràvelmente no segundo capítulo. Em todo o caso sempre era uma tentativa.
Quinhentos contos, seiscentos contos, nem sei, dinheiro como o diabo nas mãos de uma velha inútil. E a afilhada, a Marta Varejão, beata e sonsa, é que ia apanhar o cobre. Mundo muito mal arranjado.
Arrumei as contas no diário, escriturei o razão, passei os lançamentos do borrador para os livros auxiliares. Pouco a pouco vieram afligir-me as preocupações da véspera. Luísa guardara segrêdo. Provàvelmente confessaria tudo depois. Senti uma espécie de frenesi. Quási desejei que ela falasse e os Teixeira me mandassem logo embora.
Afinal eu não tinha culpa. Tão linda, branca e forte, com as mãos de longos dedos bons para beijos, os olhos grandes e azuis... De Adrião Teixeira, um velhote calvo, amarelo, reumático, encharcado de tisanas! Outra injustiça da sorte. Para que servia homem tão combalido, a perna trôpega, cifras e combinações de xadrez na cabeça? Eu, sim, estava a calhar para marido dela, que sou desempenado, gozo saúde e arranho literatura. Nova e bonita, casada com aquilo, que desgraça!
III
PASSEI uma semana inquieto, e na quinta-feira não tive um momento de sossêgo. Ao fechar o armazém, Adrião despediu-se de mim:
— Até mais tarde, João Valério.
Até mais tarde! Como se eu pudesse lá voltar. Precisava inventar uma desculpa.
Encontrei os companheiros de pensão a jantar, sob o sorriso de d. Maria José, gordinha e miúda.
— Uma novidade! gritou Pascoal quando desdobrei o guardanapo. A Clementina vai casar.
Era a eterna pilhéria: não se cansavam de forjar casamentos para a pobre da Clementina.
— Quem é o noivo? inquiriu o dr. Liberato erguendo os grossos vidros das suas lunetas de míope.
— Não se sabe, respondeu Pascoal. Foi um espírito que deu a notícia na última sessão. Clementina ficou actuada...
— Então isso continua? interveio Isidoro Pinheiro. Essas sessões têm água pela barba a padre Atanásio. Ainda