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Percorri à toa as ruas desertas, envoltas num luar baço, tentando achar tranqüillidade no pó e no calor de Janeiro. Mais tarde, na hospedaria de d. Maria José, curti uma insônia atroz, rolei horas no colchão duro, ouvindo os roncos dos companheiros de casa e conjecturando o que me iriam dizer no dia seguinte os irmãos Teixeira.

II

NÃO DISSERAM nada que se referisse ao desastroso sucesso. Logo que abri o diário, com mão trêmula, tão perturbado que receei baralhar as partidas, Adrião chegou-se à minha carteira, folheou o contas-correntes, mexeu os dedos, calculando, e ordenou:

— Escreva a d. Engrácia, João Valério.

Saíu-me um pêso do coração.

— Escreva que o que tem cá em depósito está às ordens, pode mandar receber.

— E que se quiser deixar por mais um ano... atalhou Vitorino.

— Não senhor, fêz Adrião. Apenas isto: principal e juros à disposição dela. E dê a entender na carta que não nos interessa a renovação do negócio.

— Mas interessa muito, exclamou Vitorino mostrando o caixa. O mano sabe que interessa. Olhe estas entradas.

— De acôrdo, concluíu o outro. Se ela mandar retirar, que não manda, ofereça quinze por cento em vez dos doze que pagamos. Não retira, não tem em que empregar capital. Levou muito calote ùltimamente, os gêneros estão caros, a febre aftosa deu no gado. Não retira.

Por um instante esqueci as minhas inquietações e admirei o tino de Adrião. Não serei um comerciante nunca. Eu teria, inconsideradamente, mandado propor os quinze por cento a d. Engrácia.

Fiz a carta com inveja. Ora ali estava aquela viúva antipática, podre de rica, morando numa casa gran­de como um convento, só se ocupando em ouvir missa, comungar e rezar o têrço, aumentando a fortuna com avareza para a filha de Nicolau Varejão. E eu, em mangas de camisa, a estragar-me no escritório dos Tei­xeira, eu, moço, que sabia metrificação, vantajosa pren­da, colaborava na Semana de padre Atanásio e tinha um romance começado na gaveta. É verdade que o

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