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sob o spasmo enervante de um bochorno de 35°, á sombra. «Na manhã seguinte, o sol se alevanta sem nuvens e deste modo se completa o cyclo — primavera, verão e outono num só dia tropical[1]».

A constancia de tal clima faz que se não apercebam as estações que, entretanto, como em um indice abreviado, se delineam nas horas successivas de um só dia, sem que a temperatura quotidiana tenha durante todo anno uma oscillação maior que 1.° ou 1°, 5. Assim a vida se equilibra, numa constancia imperturbavel.

Entretanto, a um lado, para o occidente, no alto Amazonas manifestações diversas caracterisam novo habitat.

E este, não ha negar, impõe acclimação penosa a todos os filhos dos proprios territorios limitrophes.

Alli, no pleno dos estios quentes, quando se diluem, mortas nos ares parados, as ultimas lufadas de leste, o thermometro é substituido pelo hygrometro na definição do clima. As existencias derivam numa alternativa dolorosa de vasantes e enchentes dos grandes rios.

Estas alteiam-se sempre de um modo assombrador.

O Amazonas referto salta fora do leito, levanta em poucos dias o nivel das aguas, de dezesete metros; expande-se em alagados vastos, em furos, em paranamirins, entrecruzados em rêde complicadissima de Mediterraneo, vincado de correntes fortes, dentre as quaes emergem, ilhados, os igapós verdejantes.

A enchente é uma parada na vida. Preso nas malhas dos igarapés, o homem aguarda, então, com stoicismo raro ante a fatalidade incoercivel, o termo daquelle iuverno paradoxal, de temperaturas altas.

A vasante é o verão. É a reviviscencia da actividade rudimentar dos que alli se agitam, do unico modo compativel com

  1. Draenert, O clima do Brazil.