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E uma hora depois o sol irradia triumphalmente no céu purissimo! A passarada irrequieta descanta pelas frondes gottejantes; sulcam os ares virações suaves — e o homem deixando os refugios a que se acolhera, contempla os estragos entre a reviviscencia universal da vida.
Os troncos e galhos das arvores rachadas pelos raios, lascadas pelos ventos; as choupanas estruidas, colmos por terra; as ultimas ondas barrentas dos ribeirões transbordantes; a herva acamada pelos campos, como se sobre elles passassem bufalos ás manadas — mal relembram a investida fulminante do flagello...
Dias depois, os ventos rodam outra vez, vagarosamente, para leste; e a temperatura começa a subir de novo; a pressão a pouco e pouco — decae; e cresce continuamente o mal estar, até que se reate nos ares immobilisados a componente formidavel do pampeiro e resurja, estrugidora, a tormenta, em rodéos turbilhonantes, enquadrada pelo mesmo scenario lugubre, revivendo o mesmo cyclo, o mesmo circulo vicioso de catastrophes.
Ora — avançando para o norte — desponta, contrastando com taes manifestações, o clima do Pará.
Os brazileiros de outras latitudes mal o comprehendem, mesmo atravez das lucidas observações de Bates.
Madrugadas tepidas, de 23° centigrados, succedendo inesperadamente a noites chuvosas; dias que irrompem como apotheoses fulgurantes, revelando transmutações inopinadas: arvores, na vespera despidas, apparecendo juncadas de flores; baixadas apauladas transmudadas em prados.
E logo depois, no circulo estreitissimo de vinte e quatro horas, mutações completas: florestas silenciosas, galhos mal vestidos pelas folhas requeimadas ou murchas; ares vasios e mudos, ramos viuvos das flores recem-abertas, cujas petalas exsiccadas se despegam e cahem, mortas, sobre a terra immovel