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Os francezes, hoje, copiam-lhes em grande parte os processos adoptados, sem necessitarem alevantar muramentos monumentaes e dispendiosos.
Represam por estacadas, entre muros de pedras seccas e terras, á maneira de palancas, os oueds mais apropriados, e talham-lhes pelo alto das bordas, em toda a largura das serranias que os ladeiam, conductos derivando para os terrenos circumjacentes, em rêdes irrigadoras.
Deste modo as aguas selvagens estacam, remansam-se, sem adquirir a força accumulada nas inundações violentas, disseminando-se, afinal, estas, amortecidas, em milhares de valvulas, pelas derivações cruzadas.
E a historica paragem, liberta da apathia do muslim inerte, transmuda-se volvendo, de novo, á physionomia antiga. A França salva os restos da opulenta herança da civilisação romana, depois desse declinio de seculos.
Ora, quando se traçar, sem grande precisão embora, a carta hypsometrica dos sertões do norte, ver-se-á que elles se apropriam a uma tentativa identica, de resultados igualmente seguros.
A idéa não é nova. Suggeriu-a ha muito, em memoraveis sessões do Instituto Polytechnico do Rio, em 1877, o bello espirito do conselheiro Beaurepaire Rohan, talvez suggestionado pelo mesmo simile, que acima apontamos.
Das discussões então travadas, em que se enterreiraram os melhores scientistas do tempo — da solida experiencia de Capanema á mentalidade rara de André Rebouças — foi a unica cousa pratica, factivel, verdadeiramente util que ficou.
Idearam-se naquella occasião, luxuosas cisternas de alvenarias; myriades de paços artesianos perfurando as chapadas; depositos colossaes ou armazens desmedidos para as reservas accumuladas, açudes vastos feitos caspios artificiaes; e por fim,