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aos inconvenientes apontados estabelecendo desde logo, como correctivo unico, severa prohibição ao córte das florestas.

Esta preoccupação dominou-o muito tempo. Mostram-no as cartas régias de 17 de Março de 1796, nomeando um juiz conservador das mattas; e a de 11 de Junho de 1799, decretando que «se cohiba a indiscreta e desordenada ambição dos habitantes (da Bahia e Pernambuco) que têm assolado a ferro e fogo preciosas, matas... que tanto abundavam e já hoje ficam a distancias consideraveis, etc.»

Ahi estão dizeres preciosos applicados directamente á região que pallida mente descrevemos.

Ha outros, compares na eloquencia.

Delettreando-se antigos roteiros dos sertanistas do norte, destemerosos catingueiros que pleiteiavam parelhas com os bandeirantes do sul, nota-se a cada passo uma allusão incisiva á bruteza das paragens que atravessaram, perquirindo as chapadas, em busca das «minas de prata» de Melchior Moreia — e passando quasi todos, á margem do sertão de Canudos, com escala em Monte-Santo, então o Pico-arassá dos tapuyas. E fallam nos «campos frios (certamente á noite, pela irradiação intensa do solo desabrigado) cortando leguas de catinga sem agua nem caravatá que a tivesse e com raizes de umbú e mandacarú, remediando a gente» no penoso desbravar das verêdas.[1]

Já nessa época, como se vê, tinham funcção proverbial, as plantas, para as quaes, hoje, appellam os nossos sertanejos.

É que o mal é antigo. Collaborando com os elementos meteorologicos, com o nordeste, com a sucção dos estratos, com as caniculas, com a erosão eolia, com as tempestades subitaneas — o homem fez-se uma componente nefasta entre as forças

daquelle clima demolidor. Se o não creou, transmudou-o,

  1. Carta de Pedro Barbosa Leal ao Conde de Sabugosa.