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Dilatam-se os horisontes. O firmamento, sem o azul carregado dos desertos, alteia-se, mais profundo, ante o expandir reviviscente da terra.
E o sertão é um valle fertil. É um pomar vastissimo, sem dono.
Depois tudo isto se acaba. Voltam os dias torturantes; a atmosphera asphyxiadora; o empedramento do solo; a nudez da flora; e nas occasiões em que os estios se ligam sem a intermittencia das chuvas — o espasmo assombrador da secca.
A natureza compraz-se em um jogo de antitheses. Elles impõe por isto uma divisão especial naquelle quadro. A mais interessante e expressiva de todas — posta como mediadora, entre os valles nimiamente ferteis e as steppes mais aridas.
Relegando a outras paginas a sua significação como factor de differenciação ethnica, vejamos o seu papel na economia da terra.
A natureza não cria normalmente os desertos. Combate-os, repulsa-os.
Desdobram-se, lacunas inexplicaveis, as vezes sob as linhas astronomicas definidoras da exuberancia maxima da vida.
Expressos no typo classico do Sahara — que é um termo generico da região maninha dilatada do Atlantico ao Indico, entrando pelo Egypto e pela Syria, assumindo todos os aspectos da depressão africana ao plateaux arabico ardentissimo de Nedjed e cahindo dahi para as areias dos bejabans, na Persia — são tão illogicos que o maior dos naturalistas lobrigou a genesis daquelle na acção tumultuaria de um cataclysmo, uma irrupção do Atlantico, precipitando-se, aguas revoltas, num remoinhar de correntes, sobre o norte da Africa e desnudando-a brutalmente.
Esta explicação de Humboldt, embora permaneça feito hypothese brilhante, tem um significado superior.