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As juremas, predilectas dos caboclos — o seu hachich capitoso, fornecendo-lhes, gratis, inestimavel beberagem, que os revigora depois das caminhadas longas, extinguindo-lhes as fatigas em momentos, feito um filtro magico — derramam-se em sébes, impenetraveis tranqueiras disfarçadas em folhas diminutas; refrondam os maryseiros raros — misteriosas arvores que presagiam a volta das chuvas e das epocas anheladas do verde e o termo da magrem[1] — quando, em pleno flagellar da secca, lhes porejam, na casca resequida dos troncos, algumas gottas, d’agua; reverdecem os angicos, lourejam os joás em moitas, e as baraunas de flores em cachos, e os araticuns á ourela dos banhados... mas, destacando-se, dispersos pelas chapadas ou no bolear dos cerros, os umbuseiros, estrellando flores alvissimas, abrolhando em folhas, que passam em fugitivos cambiantes de um verde pallido ao roseo vivo dos rebentos novos, attrahem melhor o olhar, são a nota mais feliz do scenario deslumbrante.

E o sertão é um paraizo.

Resurge ao mesmo tempo a fauna resistente das caatingas disparam pelas baixadas humidas os caititús esquivos; passam, em varas, pelas tigueras, num estridulo estrepitar de maxillas percutindo, os queixadas de canella ruiva; correm pelos taboleiros altos, em bandos, esporeando-se com os ferrões de sob as azas, as êmas velocissimas; e as seriemas de vozes lamentosas, e as sericoias vibrantes, cantam nos balsedos, á fimbria dos banhados onde vem beber o tapir estacando um momento no seu trote brutal, inflexivelmente rectilineo, pela caatinga, derribando arvores; e as proprias sussuaranas, aterrando os mocós espertos que se aninham aos pares nas luras dos fraguedos, pulam, alegres, nas macegas altas, antes de

  1. Verde e magrem, termos com que os matutos denominam as quadras chuvosas e as seccas.