Página:Euclides da Cunha - Os Sertões (1902).pdf/63
aos estipites dos ouricuryseiros, fugindo do solo barbaro para o remanso da copa da palmeira.
Aqui, alli, outras modalidades; as palmatorias do inferno, opuntias de palmas diminutas, diabolicamente erriçadas de espinhos, — com o vivo carmim das cochonilhas que alimentam; orladas de flores rutilantes, quebrando alacremente a tristeza solenne das paysagens...
E pouco mais especialisa quem anda, pelos dias claros, por aquelles descampados, entre arvores sem folhas e sem flores. Toda a flora, como em uma derrubada, se mistura em baralhamento indescriptivel.
É a caatanduva, matto doente, da etymologia indigena, dolorosamente cahida sobre o seu terrivel leito de espinhos!
Vingado um comoro qualquer, postas em torno as vistas, perturba-as o mesmo scenario desolador: a vegetação agonisante, doente e informe, exhausta, n’um espasmo doloroso...
É a sylva æstu aphylla, a sylva horrida de Martius, abrindo no seio illuminado da natureza tropical um vacuo de deserto.
Comprehende-se, então, a verdade da phrase paradoxal de Aug. de Saint-Hilaire: «Ha, alli, toda a melancolia dos invernos, com um sol ardente e os ardores do verão!»
A luz crua dos dias longos flammeja sobre a terra immovel e não a anima. Reverberam as infiltrações de quartzo pelos cerros calcareos, desordenadamente esparsos pelos ermos, num alvejar de banquises; e oscillando á ponta dos ramos seccos das arvores inteiriçadas, dependuram-se as tillandsias alvacentas, lembrando flocos esgarçados, de neve, dando ao conjuncto o aspecto de uma paysagem glacial, de vegetação hybernante, nos gelos...
Mas no empardecer de uma tarde qualquer, de Março, rapidas tardes sem crepusculos, prestes afogadas na noite, as estrellas pela primeira vez scintillam vivamente.