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Canudos tinha muito apropriadamente, em roda, uma cercadura de montanhas. Era um parenthesis; era um hiatus; era um vacuo.
Não existia.
Transposto aquelle cordão de serras, ninguem mais peccava
Realisava-se um recúo prodigioso no tempo; um resvalar estonteador por alguns seculos abaixo.
Descidas as vertentes, em que se entalava aquella furna enorme, podia representar-se lá dentro, obscuramente, um drama sanguinolento da Edade das cavernas. O scenario era suggestivo. Os actores, de um e de outro lado, negros, caboclos, brancos e amarellos, traziam, intacta, nas faces, a caracterisação indelevel e proteica das raças — e só podiam unificar-se sobre a base commum dos instinctos inferiores e maus.
A animalidade primitiva, lentamente expungida pela civilisação, resurgiu, inteiriça. Desforrava-se afinal. Encontrou nas mãos ao envez do machado de diorito ou o arpão de osso, a espada e a carabina. Mas a faca relembrava-lhe melhor o antigo punhal de silex lascado.
Vibrou-a.
Nada tinha a temer. Nem mesmo o juizo remoto do futuro
Mas que entre os deslumbramentos do futuro caia, implacavel, revolta, desalinhada e incorrecta; sem altitude, porque a deprime o assumpto; brutalmente violenta, porque é um grito de protesto; sombria, porque reflecte uma nodoa — esta pagina sem brilhos...