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tempos, fome no arraial, sendo quasi todos os mantimentos destinados aos que combatiam; e, revelação mais grave, o Conselheiro não apparecia desde muito.

Ainda mais, trancadas todas as sahidas, começara para todos, lá dentro, o supplicio crescente da sêde.

Não iam além as informações. Os que as faziam, inteiramente succumbidos, mal respondiam ás perguntas. Um unico não reflectia, na postura abatida, as provações que victimavam os demais. Forte, de estatura meã e entroncada — specimen sem falhas desses hercules das feiras sertanejas, de ossatura de ferro, articulada em junctas nodosas e apontando em apophyses rigidas — era, tudo o revelava, um luctador da primeira linha, talvez um dos guerrilheiros acrobatas que se dependuravam ageis nos dentilhões abalados da egreja nova. Primitivamente branco, requeimara-se-lhe inteiramente o rosto, mosqueado de sardas. Pendia-lhe á cintura, oscillante, batendo a baixo do joelho, a bainha vasia de uma faca de arrasto.

Fôra preso em plena refrega. Conseguira derribar, num arremessão valente, tres ou quatro praças e lograria escapar se não cahisse, tonto, ferido, de esconso, por uma bala, na orbita esquerda.

Entrou, jugulado como uma fera, na tenda do commandante da 1ª columna. Alli o largaram. O resfolego apressado arguia o cansaço da lucta. Alevantou a cabeça e o olhar singular que lhe sahia dos olhos — um cheio de brilhos, outro cheio de sangue — assustava.

Tartamudou, desageitadamente, algumas phrases mal percebidas. Tirou o largo chapéo de couro e, ingenuamente, fez menção de sentar-se.

Era a suprema petulancia do bandido!

Brutalmente empurrado, rolou ás encontroadas pela outra porta, escorjado sob punhos possantes.