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Como quer que seja, o penoso regimen dos estados do norte está em funcção de agentes desordenados e fugitivos, sem leis ainda definidas, subjeitas ás perturbações locaes, derivadas da natureza da terra, e a reacções mais amplas, promanadas das disposições geographicas. Dahi as correntes aereas que o desequilibram e variam.

Determina-o em grande parte, e, talvez de modo preponderante, a monção de nordeste, oriunda da forte aspiração dos planaltos interiores, que, em vasta surperficie alargada até ao Matto Grosso, são, como se sabe, séde de grandes depressões barometricas, no estio.

Attrahido por ellas, o nordeste vivo, ao entrar, de Dezembro a Março, pelas costas septentrionaes, é singularmente favorecido pela propria conformação da terra, na passagem, celere, por sobre os chapadões desnudos cuja irradiação intensa lhe alteia o ponto de saturação diminuindo as probabilidades das chuvas, e como que o repellem, de modo a lhe permittir acarretar para os recessos do continente, intacta, sobre os mananciaes dos grandes rios, toda a humidade absorvida na travessia dos mares.

De facto, a disposição orographica dos sertões, á parte ligeiras variantes, — cordas de serras que se alinham para nordeste parallelamente á monção reinante — facilita a travessia desta, Canalisa-a. Não a contrabate n’um antagonismo de encostas, abarreirando-a, alteiando-a, provocando-lhe o resfriamento, e a condensação em chuvas.

Um dos motivos das seccas, repousa, assim, na disposição topographica.

Falta ás terras flagelladas do norte uma alta serrania que correndo em direcção perpendicular áquelle vento, determine a dynamic colding, consoante um dizer expressivo.

Um facto natural de ordem mais elevada, esclarece esta hypothese.