Página:Euclides da Cunha - Os Sertões (1902).pdf/316
estirados sobre as pedras, desenlapando-se á bocca das furnas, esparsos pelas encostas, viam-se os jagunços victimados na vespera.
Os companheiros sobreviventes passavam-lhes, agora, de permeio, parecendo uma turba vingadora de demonios entre multidão de spectros...
Não cahiam mais, em chusma, sobre a linha, desafiando as ultimas granadas; flanqueavam-na, em correrias pelos altos deixando que agisse, quasi exclusiva, a sua arma formidavel — a terra.
Esta bastava-lhes.
O curiboca cuja lazzarina se partira ou o ferrão se perdera no torvelino, volvia o olhar em torno; e a montanha era um arsenal.
Alli estavam blocos esparsos ou arrumados em pilhas vacillantes prestes a desencadearem o potencial de quedas violentas, pelos declives. Abarcava-os; transmudava a espingarda imprestavel em alavanca; e os monolithos abalados oscillavam, e cahiam, e rolavam, a principio em rumo incerto entre as dobras do terreno, depois, mais rapidos, pelas normaes de maximo declive e despenhando-se, por fim, vertiginosamente, em saltos espantosos; e batendo contra as outras pedras, e esfarelando-as em estilhas, passavam como balas razas monstruosas sobre as tropas apavoradas.
Estas em baixo salvavam-se cobertas pelo angulo morto do proprio caminho á meia encosta, sob uma avalanche de blocos e graeiros.
As fadigas da marcha abatiam-nas mais que o inimigo.
O sol culminara ardente e a luz crua do dia tropical cahindo na região pedregosa e despida, refluia aos espaços num flammejar de queimadas grandes alastrando-se pelas serras.
A natureza toda quedava-se immovel, naquelle deslumbramento, sob o espasmo da canicula.