Página:Euclides da Cunha - Os Sertões (1902).pdf/293
Não havia mesmo a possibilidade de um combate, no rigorismo technico do termo.
A lucta, digamos com mais acerto, uma monteria a homens, uma batida brutal em torno á ceva monstruosa de Canudos, ia reduzir-se a ataques ferozes, a esperas ardilosas, a subitas refregas, instantaneos recontros em que fôra absurdo admittir-se que se podessem desenvolver as phases principaes daquelle, entre os dous extremos dos fogos violentos, que o iniciam, ao epilogo delirante das cargas de bayoneta.
Funcção do homem e do solo, aquella guerra devia impulsionar-se a golpes de mão de estrategista revolucionario e innovador.
Nella iam surgir tumultuariamente, fundidas, penetrandose, simultaneas, todas as situações, naturalmente distinctas, em que se póde encontrar qualquer força em operações — a de repouso, a de marcha e a de combate. A expedição, marchando prompta a encontrar o inimigo em todas as voltas dos caminhos, ou a vel-o romper dentre as proprias fileiras surprehendidas, devia repousar nos alinhamentos da batalha.
Nada se deliberou quanto a condições tão imperiosas. O commandante limitou-se a formar tres columnas e a ir para a frente, pondo deante da astucia subtil dos jagunços a potencia ronceira de tres phalanges compactas — homens inermes, carregando armas magnificas.
Ora, um chefe militar deve ter algo de psychologo.
Por mais mecanisado que fique o soldado pela disciplina, tendendo para esse sinistro ideal de homunculo, feito um feixe de ossos amarrados por um feixe de musculos, energias inconscientes sobre alavancas rigidas, sem nervos, sem temperamento, agindo como um automato pela vibração dos clarins, transfiguram-no as emoções da guerra. E a marcha nos sertões desperta-as a todo o instante. Trilhando veredas desconhecidas, envolto de uma natureza selvagem e pobre, o nosso soldado,