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passado multidões sem conto em um seculo de romarias. A religiosidade ingenua dos matutos, alli talhou, em milhares de degraus, colleante, em caracol, pelas ladeiras successivas, aquella vereda branca de silica, longa de mais de dous kilometros, como se alevantasse uma escada para os céus...
Esta illusão é empolgante ao longe.
Vêm-se as capellinhas alvas, que a pontilham a espaços, subindo a principio em rampa fortissima, derivando, depois, tornejantes, á feição dos pendores, alteiando-se sempre, erectas
sobre despenhadeiros, perdendo-se nas alturas, cada vez menores, diluidas a pouco e pouco no azul purissimo dos ares, até á ultima, no alto...
E quem segue pelo caminho de Queimadas, atravessando um esboço de deserto, onde agonisa uma flora de gravetos — arbustos em cuja galhada revolta se imaginam contorsões de espasmos, cardos agarrados a pedras ao modo de tentaculos constrictores, bromelias desabotoando em floração sanguinolenta — avança rapido, anceiando pela paragem que o arrebata.
Chega; e não soffreia doloroso desapontamento.
A estrada vae até á praça, rectangular, em declive, de chão estriado de enxurros.
No centro o indefectivel barracão da feira tem, ao lado, pequena egreja, e de outro o unico ornamento da villa — um pé de tamarineiro, secular talvez. Em torno casas baixas e velhas; e, sobrelevado, um sobrado unico que seria mais tarde o quartel-general das tropas.
Monte Santo, afinal, resume-se naquelle largo. Alli desemboccam pequenas ruas, descendo umas em ladeiras para larga sanga apaulada, abrindo outras para a varzea; outras embatendo sem sahidas, contra a serra.
Esta por sua vez, de perto, perde parte do encanto.
Parece diminuir de altitude. Sem mais o traçado regular que assume á distancia, tem, revestindo-lhe as encostas, uma