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E em torno desta entrada, continuaram outras, orientadas pelos roteiros confusos nos quaes, entretanto, o antigo nome da serra — Piquaraçá — se lê sempre, demarcando uma paragem bemfazeja naquelles terrenos agros.
Por isto centralizou, de algum modo, a primeira agitação feita em torno das lendarias «Minas de Prata», desde as pesquisas inuteis do Muribeca, que até lá chegara e não passara avante, «com pouco effeito e pouca diligencia» até ao tenaz Pedro Barbosa Leal, acompanhando as trilhas de Moreya e estacionando por muitos dias na montanha, onde marcas indecifraveis denotavam a passagem de antecessores egualmente audazes.
Passaram-se, porém, os tempos. Ficou perdida no sertão a serrania mysteriosa onde muitos imaginavam, talvez a séde do el-dorado appetecido, até que Apollonio de Todi a transformasse em templo magestoso e rude, como vimos.
E hoje, quem segue pelo caminho de Queimadas, trilhando um solo abrolhando cactos e pedras, ao divisal-a, das cercanias de Quirinquinquá, duas leguas aquem, — estaca; volve em cheio para o levante a vista deslumbrada, e acredita que o ondular dos ares referventes e a fascinação da luz, alteiam-lhe defronte, entre o firmamento claro e as chapadas amplas, uma miragem estonteadora e grande.
A serra feita dessa massa de quartzito, tão propria ás architecturas monumentaes da Terra, alteia-se, ao longe, accrescida a altitude pelas varzeas deprimidas, em torno. Lança, rectilinea, a linha de cumiadas. A vertente oriental cae-lhe, a pique, feito uma muralha, sobre o villarejo.
Este alli se encosta, sobre socalco breve, humillimo, assoberbado pela magestade da montanha.
Entretanto é por esta acima até ao vertice que se prolonga, sahindo da praça, a mais bella de suas ruas — a via-sacra dos sertões, macadamisada de quartz alvissimo, por onde têm