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norte a historia das depredações avulta cada vez maior, até Xique-Xique, lendaria nas campanhas eleitoraes do imperio.

Não ha traçal-a em meia duzia de paginas. O mais obscuro povoado tem, alli, a sua tradição especial e sinistra.

Um unico, talvez, se destaca sob outro aspecto, o de Bom Jesus da Lapa.

É a Mecca dos sertanejos.

A sua conformação original, ostentando-se na serra de grimpas altaneiras, que resoam como sinos; abrindo-se na gruta caprichosa, cujo interior recorda a nave de uma egreja, escassamente aclarada; tendo, pendidos dos tectos, grandes candelabros de stalactites; prolongando-se em corredores cheios de velhos ossuarios diluvianos; e a lenda emocionante do monge que alli viveu em companhia de uma onça — tornaram-no objectivo predilecto de romarias piedosas, convergentes dos mais longinquos logares, de Sergipe, Piauhy e Goyaz.

Ora, entre as dadivas que em consideravel copia jazem no chão e ás paredes do extranho templo, o visitante observa, de par com as imagens e as reliquias, um traço sombrio de religiosidade singular. Facas e espingardas.

O clavinoteiro alli entra, contricto, descoberto. Traz á mão o chapéu de couro, e a arma á bandoleira.

Cae, genuflexo, fronte abatida sobre o chão humido do calcareo transudante... E reza. Sonda longo tempo, batendo no peito, as velhas culpas. Ao cabo, cumpre devotamente a promessa que fizera para que lhe fosse favoravel o ultimo conflicto que travara: entrega ao Bom Jesus o trabuco famoso, em cuja coronha alguns talhos de canivete lembram o numero de mortes commettidas.

Sae desapertado de remorsos, feliz pelo tributo pago. Amatula-se de novo á quadrilha. Reata a vida temerosa.

Pilão Arcado, outr’ora florescente e hoje deserta, na derradeira phase de uma decadencia que começou em 1856;