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chumbo e prata, lá estão, incontaveis na galena argentifera do Assuruá...[1]

É natural, por isto, que desde o começo do seculo passado, a historia dramatica dos povoados do S. Francisco, começasse a reflectir uma situação anomala.[2] E embora em todas narrativas emocionantes que a formam, se destaquem rivalidades partidarias e desmandos impunes de uma politica intoleravel de potentados locaes, todas as desordens, surgindo sempre precisamente nos logares em que se ostentou, outr’ora, mais activa a ancia mineradora, denunciam a genesis remota que esboçamos.

Exemplifiquemos.

Todo o valle do rio das Eguas e, para o norte, o do rio Preto, formam a patria original dos homens mais bravos e mais inuteis da nossa terra.[3]

Dalli abalam para as algaras arrojadas alugando a bravura aos potentados, e têm sempre, culminando-as, o incendio e o saque de villas e cidades, em todo o valle do grande rio. Avançando contra a corrente já chegaram, em 1879, á cidade mineira de Januaria que conquistaram, tornando á Carinhanha, de onde haviam partido, carregados de despojos. Desta villa para o

  1. Vide «Descripções praticas da Provincia do Brazil» pelo tenente-coronel Durval Vieira de Aguiar.
  2. Caetano Pinto de Miranda Montenegro, vindo em 1804 de Cuyabá ao Recife, andando 670 leguas, passou pela Barra do Rio Grande, e no relatorio que enviou ao visconde de Anadia, diz, referindo-se áquelles logares que «em nenhuma parte dos dominios portuguezes a vida dos homens tem menos segurança. (Liv. 16. Corr. da Côrte, 1804-1808).
  3. Quem precisa de Jagunços no rio S. Francisco manda-os contractar nesse grande viveiro. O clavinote com a munição é o preço; o mais arranjam facilmente conforme o valor da impunidade que a influencia do patrão offerece.» Tenente-coronel Durval. Idem.