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I

O planalto central do Brazil desce, nos littoraes do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras maritimas, distendidas do Rio Grande á Minas. Mas ao derivar para as terras septentrionaes diminue gradualmente de altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa oriental em andares ou repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza afastando-o consideravelmente para o interior.

De sorte que quem o contorna, seguindo para o norte, observa notaveis mudanças de relevos: a principio o traço continuo e dominante das montanhas, precintando-o, com destaque saliente, sobre a linha projectante das praias; depois, no segmento de orla maritima entre o Rio de Janeiro e o Espirito Santo, um apparelho littoral revolto, feito da envergadura desarticulada das serras, riçado de cumiadas e corroido de angras, e escancelando-se em bahias, e repartindo-se em ilhas, e desaggregando-se em recifes desnudos, á maneira de escombros do conflicto secular que alli se trava entre os mares e a terra; em seguida, transposto o 15º parallelo, a attenuação de todos os accidentes — serranias que se arredondam e suavisam as linhas dos taludes, fraccionadas em morros de encostas indistinctas no horizonte que se amplia; até que em plena faixa costeira