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III
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o rachitismo exhaustivo dos mestiços neurasthenicos do littoral.
A sua apparencia, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrario. Falta-lhe a plastica impeccavel, o desempeno, a estructura correctissima das organisações athleticas.
É desgracioso, desengonçado, torto. Hercules-Quasimodo, reflecte, no aspecto, a fealdade typica dos fracos.
O andar sem firmeza, sem aprumo, quasi gingante e sinuoso, apparenta a translação de membros desarticulados.
Aggrava-o a postura normalmente acurvada, num manifestar de displicencia que lhe dá um caracter de humildade deprimente.
A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente, ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavallo, se soffreia o animal, para trocar duas palavras com um conhecido, cae logo sobre um dos estribos, descançando sobre a espenda da sella. Caminhando, mesmo a passo rapido, não traça trajectoria rectilinea e firme. Avança, celeremente, num bambolear caracteristico, de que parecem ser o traço geometrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca, pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro ou travar ligeira conversa com um amigo, cae logo — cae é o termo — de cocaras, atravessando largo tempo numa posição de equilibrio instavel, em que todo o corpo lhe fica suspenso pelos dedos—