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Assombrava-as a terra, que se modelara para as grandes batalhas silenciosas da Fé.

Deixavam-na, sem que nada lhes determinasse a volta; e deixavam em paz o gentio.

D’ahi a circumstancia, revelada por uma observação feliz, de predominarem ainda hoje, nas denominações geographicas daquelles logares, termos de origem tapuya resistentes ás absorpções do portuguez e do tupy, que se exercitaram noutros pontos.

Sem nos delongarmos demais, resumamos ás terras circumjacentes a Canudos a exemplificação deste facto de linguagem, que tão bem traduz uma vicissitude historica.

«Transpondo o S. Francisco em direcção ao Sul, penetra-se de novo numa região ingrata pela inclemencia do céo, e vai-se atravessando a bacia elevada do Vasa-Barris, antes de ganhar os trechos esparsos e mais deprimidos das chapadas bahianas que, depois do salto de Paulo Affonso, depois de Canudos e de Monte Santo, levam a Itiuba, ao Tombador e ao Assuruá. Ahi, nesse trecho do patrio territorio, aliás dos mais ingratos, onde outr’ora se refugiaram os perseguidos destroços dos Orizes, Procás e Carirys, de novo apparecem, designando os logares, os nomes barbaros de procedencia tapuya, que nem o portuguez nem o tupy logrou supplantar.

Lêm-se então no mappa da região com a mesma frequencia dos accidentes topographicos os nomes como Pambú, Patamoté, Uáuá, Bendegó, Cumbe, Massacará, Cocorobó, Geremoabo, Tragagó, Canché, Chorrochó, Quincuncá, Cochó, Centocé, Assuruá, Chique-Chique, Jequié, Sincorá, Caculé ou Catolé, Orobó, Mocugé e outros, egualmente barbaros e extranhos.»[1]

  1. Theodoro Sampaio. — Da expansão da lingua tupy e do seu predominio na lingua nacional.