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norte, um outro: o meio physico dos sertões em todo o vasto territorio que se alonga do leito do Vasa-Barris ao do Parnahyba, no occidente.

Vimos-lhe a physionomia extranha: a flora aggressiva, o clima impiedoso, as seccas periodicas, o solo esteril crispado em serranias desnudas, insulado entre os explendores do magestoso araxá[1] do centro dos planaltos e as grandes mattas, que acompanham, orlando-a, a curvatura das costas.

Esta região ingrata para a qual o proprio tupy tinha um termo suggestivo pora-pora-eyma,[2] remanescente ainda numa das serranias que a fecham pelo levante (Borborema), foi o asylo do tapuya.

Batidospelo portuguez, pelo negro e pelo tupy colligados, refluindo ante o numero, os indomitos carirys encontraram protecção singular naquelle collo duro da terra, escalavrado pelas tormentas, endurado pela ossamenta rigida das pedras, queimado pelas soalheiras, esvurmando espinheiraes e caatingas.

Alli se amorteciam, cahindo no vacuo das chapadas, onde ademais nenhuns indicios se mostravam dos minereos appetecidos, os arremessos das entradas.

A tapuy-retama[3] misteriosa ataviara-se para o stoicismo do missionario.

As suas veredas multivias e longas, retratavam a marcha lenta, torturante e dolorosa dos apostolos.

As bandeiras que a alcançavam, decampavam logo, seguindo, rapidas, fugindo, buscando outras paragens.

  1. Segundo Couto de Magalhães, decompõe-se este bello vocabulario em ara, dia e echá, ver, avistar. Araxá — logar de onde se avista primeiro o sol; por extensão terras altas dos chapadões do interior.
  2. Logar despovoado, esteril.
  3. Tapuy-retama, região do Tapuya.