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Os versos de um contemporaneo, Garcia de Rezende, são um documento:

«Vemos no reyno metter,
«Tantos captivos crescer,
«Irem-se os naturaes
«Que, se assim for, serão mais
«Elles que nós, a meu ver»

Assim a genesis do mulato teve uma séde fóra do nosso paiz.

A primeira mestiçagem com o africano se operou na metropole.

Entre nós naturalmente cresceu.

A raça dominada, porém, teve aqui, dirimidas pela situação social, as faculdades de desenvolvimento. Organisação potente accommodada á humildade extrema, sem as rebeldias do indio, o negro teve, de prompto, sobre os hombros toda a pressão da vida colonial. Era a besta de carga adstricta a trabalhos sem folga.

As velhas ordenações, estatuindo o «como se podem engeitar os escravos e bestas por os acharem doentes ou mancos» denunciam a brutalidade da epoca.

Alem disto — insistamos num ponto incontroverso, as numerosas importações de escravos, se accumulavam no littoral.

A grande tarja negra debruava a costa da Bahia ao Ma ranhão, mas pouco penetrava o interior.

Mesmo em franca revolta, o negro humilde feito quilombola temeroso, aggrupando-se nos mocambos, parecia evitar o amago do paiz. Palmares, com seus trinta mil mocambeiros, distava afinal poucas leguas da costa.

Nesta ultima a uberdade da terra fixara simultaneamente dous elementos, libertando o indigena.

A cultura extensiva da canna, importada da madeira, determinava o olvido dos sertões. Antes mesmo da invasão