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ainda não havia um estabelecimento fóra da ilha de Itamaracá cujos visinhos andavam por uns 200, com 3 engenhos de assucar».

Quando, alguns annos mais tarde, se povoou melhor a Bahia, a desproporção entre o elemento europeu e os dois outros continuou desfavoravel, em progressão arithmetica perfeita. Segundo Fernão Cardim, alli existiam 2000 brancos, 4000 negros e 6000 indios. É visivel, durante muito tempo, a predominancia do elemento autochtone. Nos primeiros cruzados, portanto, elle deve ter influido muito.

Os forasteiros que aproavam áquellas plagas eram, a de mais, de molde para essa mistura em larga escala. Homens de guerra, sem lares, affeitos á vida solta dos acampamentos, ou degredados e aventureiros corrompidos, norteava-os a todos como um aphorismo o ultra equinotialem non peccavi, na phrase de Barleus. A mancebia com as caboclas descambou logo em franca devassidão, de que nem o clero se isentava. O padre Nobrega definio bem o facto, na celebre carta ao rei (1549) em que, pintando com realismo ingenuo a dissociação dos costumes, declara estar o interior do paiz cheio de filhos de christãos, multiplicando-se segundo os habitos gentilicos. Achava conveniente que lhe enviassem orphans, ou mesmo mulheres, que fossem erradas, que todas achariam maridos, por ser a terra larga e grossa.

A primeira mestiçagem se fez, pois, nos primeiros tempos, intensamente, entre o europeu e o selvicola. «Desde cedo, dil-o Casal, os tupiniquins, gentio de boa indole, foram christianisados e aparentados com os europeus, sendo innumeros os brancos naturaes do paiz com casta tupiniquina.»

Por outro lado, embora existissem em grande copia mesmo no reino, os africanos, tiveram, no primeiro seculo, uma funcção inferior. Em muitos lugares mesmo rareavam. Eram poucos, diz aquelle narrador sincero, no Rio Grande do Norte «onde