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assumpto. Definamos rapidamente os antecedentes historicos do jagunço.

Ante o que vimos a formação brazileira do norte é mui diversa da do sul. As circumstancias historicas, em grande parte oriundas das circumstancias physicas, originaram differenças iniciaes no enlace das raças, prolongando-as até ao nosso tempo.

A marcha do povoamento, do Maranhão á Bahia, revela-as.

Este foi lento. As gentes portuguezas não abordavam o littoral do norte alentadas pela força viva das migrações compactas, grandes massas invasoras capazes, ainda que destacadas de torrão nativo, de conservar, pelo numero, todas as qualidades adquiridas em longo tirocinio historico. Vinham esparsas, parcelladas em pequenas levas de degredados ou colonos contrafeitos, sem o desempeno viril dos conquistadores.

Deslumbrava-as ainda o Oriente.

O Brazil era a terra do exilio; vasto presidio com que se amedrontavam os hereticos e os relapsos, todos os passiveis do morra per ello da sombria justiça daquelles tempos. Deste modo nos primeiros tempos, o numero reduzido de povoadores contrasta com a vastidão da terra e a grandeza da população indigena.

As instrucções dadas, em 1615, ao capitão Fragoso de Albuquerque, a fim de regular com o embaixador hespanhol em França, o tratado de treguas com La Revardiere, são claras a respeito. Alli se affirma «que as terras do Brazil não estão despovoadas porque nellas existem mais de tres mil portuguezes».

Isto para o Brazil todo — mais de cem annos após o descobrimento....

Segundo observa Ayres de Casal[1] «a população crescia

tão devagar que na época da perda do Sr. D. Sebastião (1580)

  1. Pag. 195. Chorographia Brazileira.