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De feito, emquanto em Pernambuco as tropas de von Schoppe preparavam o governo de Nassau, em S. Paulo se architectava o drama sombrio de Guayra.

E quando a restauração em Portugal veiu alentar em toda a linha a repulsa ao invasor, appellidando de novo os combatentes exhaustos, os sulistas frisaram ainda mais esta separação de destinos, aproveitando-se do mesmo facto para estadearem a autonomia franca, no reinado de um minuto de Amador Bueno.

Não temos contraste maior na nossa historia. Está nelle a sua feição verdadeiramente nacional.

Fóra disto mal a vislumbramos nas côrtes espectaculosas dos vice-reis, na Bahia, onde imperava a Companhia de Jesus com o privilegio da conquista das almas, euphemismo casuistico disfarçando o monopolio do braço indigena.

Na plenitude do seculo XVII o contraste se accentua.

Os homens do sul irradiam pelo paiz inteiro. Abordam as raias extremas do Equador.

Até aos ultimos quarteis do seculo XVIII, o povoamento. segue as trilhas embaralhadas das bandeiras.

Seguiam successivas, incansaveis, com a fatalidade de uma lei, porque traduziam, com effeito, uma queda de potenciaes, as grandes caravanas guerreiras, vagas humanas desencadeiadas em todos os quadrantes, invadindo a propria terra, batendo-a em todos os pontos, descobrindo a depois do descobrimento, desvendando-lhe o seio rutilante das minas.

Fóra do littoral, em que se reflectia a decadencia da metropole e todos os vicios de uma nacionalidade em decomposição insanavel, aquelles sertanistas, avantajando-se ás terras extremas de Pernambuco ao Amazonas, semelhavam uma outra raça, no arrojo temerario e resistencia aos revezes.

Quando as correrias do barbaro ameaçavam a Bahia, ou Pernambuco, ou a Parahyba, e os quilombos se escalonavam pelas mattas, feito ultimos refugios do africano revoltoso — o