Página:Euclides da Cunha - Os Sertões (1902).pdf/102

Esta página foi revisada, mas ainda precisa ser validada
— 82 —

Mesmo no seu periodo culminante, a lucta com os hollandezes, acampam, claramente distinctos, nas suas tendas de campanha, os negros de Henrique Dias, os indios de Camarão e os luzitanos de Vieira. Apenas aproximados na guerra, distanciam-se na paz. O drama de Palmares, as correrias dos selvicolas, os conflictos na orla dos sertões, violam a transitoria convergencia contra o batavo.

Encravado no littoral, entre o sertão inabordavel e os mares, o velho aggregado colonial tendia a chegar ao nosso tempo, immutavel, sob o emperramento de uma centralisação estupida, realisando a anomalia de deslocar para uma terra nova o ambiente moral de uma sociedade velha.

Bateu-o, felizmente, a onda impetuosa do sul.

Aqui, a acclimação mais prompta, em meio menos adverso, emprestou, cêdo, mais vigor aos forasteiros. Da absorpção das primeiras tribus surgiram os cruzados das conquistas sertanejas, os mamalucos audazes.

O paulista — e a significação historica deste nome abrange os filhos do Rio de Janeiro, Minas, S. Paulo e regiões do sul — erigiu-se como um typo autonomo, aventuroso, rebellado, liberrimo, com a feição perfeita de um dominador da terra, emancipando-se, insurrecto, da tutella longiqua, e afastando-se do mar e dos galeões da metropole, investindo com os sertões desconhecidos, delineando a epopéa inedita das «Bandeiras»...

Este movimento admiravel reflecte o influxo das condições mesologicas.

Não houvera distincção alguma entre os colonisadores de um e outro lado. Em ambas prevaleciam os mesmos elementos, que eram o desespero de Diogo Coelho.

«Piores qua na terra que peste...»

do Mas, no sul, a força viva restante no temperamento dos que vinham de romper o mar immoto, não se delia num clima enervante; tinha nova componente na força mesma da terra;