Página:Encadernado da Harvard University sobre a Questão Coimbrã.djvu/147

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que dá um zero por denominador. Comtudo, entre nós, como se vê pelas suas obras, ou talvez por esta infancia perpetua que lhe encontram os seus admiradores, que é essencialmente imitadora, procura tambem no ultimo quartel da vida acclamar-se o arbitro supremo da litteratura, e cobrir com os retalhos da sua purpura as chagas e aleijões dos aulicos, decretando-lhes a admiração publica, e impondo-os á posteridade. Cabia aqui, para todos, o bom dito de Voltaire a proposito da Epistola de J. B. Rousseau Á Posteridade. Se estas coisas fossem feitas por leviandade natural da senectude, ao menos tinhamos a certeza de que lá estavam as bemaventuranças que dariam por premio o reino do céo. O apparecimento de um livro é uma das melhores tertulias para o sr. Castilho; apparece logo como estes homens que vão a todos os enterros.

Esta phrase usual de republica das lettras significa mais do que se pensa; a intelligencia não reconhece magestades, nem hierarchias, vive da egualdade plena, e tanto, que é este o dom maravilhoso da razão, a uniformidade de processos para uma egualdade de resultados—a verdade. A Carta do sr. Anthero do Quental colloca na sua verdadeira altura o que significam estas insinuações perfidas contra a eschola de Coimbra [1], as attençoes equivocas, e a animação clandestina aos adeptos que lhe vão na pista apodando com insolencias e banalidades todo o impulso dado para sahirmos das superfetações mesquinhas a que entre nós se chama arte. A carta versa sobre o bom senso e o bom gosto, e é pela carencia d'estes dons que se adquire o principado da lyra.

  1. Não existe eschola alguma; existem apenas homens que sabem pensar e escrever com independencia. Todavia ha quem ache conveniente servir-se d'esta designação para comprometter esses homens tornando-os solidarios com as incoerencias e futilidades de gente que se dá por honrada em vêr-se reprovada em tão boa companhia.