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Basta que ella seja enunciada para que se lhe reconheçam logo todos os symptomas d’uma allucinação morbida. Não ha n’ella proposição que não seja chimerica. Uma só é exacta: aquella pela qual o anarchismo se prende ao socialismo, e que estabelece, com razão, que a presente organisação social, em que uma classe possue todos os gozos e outra soffre todas as miserias, é iniqua.

Partindo do facto d’esta grande e atroz injustiça, o anarchista começa, logo que d’elle se afasta, para lhe procurar a causa e a cura, a delirar. Delira quando, ao procurar a causa do mal, a encontra no principio do direito: e delira ainda mais quando, ao procurar a cura do mal, a entrevê ou, antes, claramente a vê, na destruição da humanidade pela dynamite. O anarchista é pois, no fundo, um socialista que caminhou seguramente, por um caminho racional, emquanto foi, como socialista, accusando a organisação da sociedade — mas que depois, ou impaciente d’esse lento caminho juridico, ou cedendo aos impulsos d’uma natureza desequilibrada, deu um grande salto para fóra da realidade, rolou no absurdo, e cabriolando através d’uma metaphysica insensata, veiu cahir miseravelmente em praticas d’uma ferocidade selvagem.

Ha pois razão para dizer que o anarchismo é uma doença, uma exacerbação morbida do socialismo.

Mas como é que esta seita de doentes tão disparatada na sua doutrina, e tão impotente nos seus meios de acção (o que obsta sempre á efficacia de qualquer