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DOM JOÃO VI NO BRAZIL

historiador, como em Tollenare, o viajante de commercio [1], poderiamos facilmente traçar a ascendencia espiritual do abbade philosopho.

O quadro por este auctor celebre esboçado do futuro grandioso do Brazil e dos meios indicados para realizal-o, merece ser lembrado porque, si Dom João VI o não cumpriu exactamente, fez muito para se approximar do programma traçado; fez quanto ao seu temperamento timorato, de decisão lenta, e ao seu respeito pelas normas traditionaes da administração portugueza era dado fazer n’esse caminho. Eis como escrevia, com bastante ignorancia dos detalhes mas grande magestade de phrase, o abbade Raynal: “O Brazil converter-se-ha n’um dos mais formosos estabelecimentos do globo (nada para isto lhe falta) quando o tiverem libertado d’essa multidão de impostos, d’esse cardume de recebedores que o humilham e opprimem; quando innumeros monopolios não mais encadearem sua actividade; quando o preço das mercadorias que lhe trazem não mais fôr duplicado pelas taxas de que andam sobrecarregadas; quando os seus productos não pagarem mais direitos ou não os pagarem mais avultados que os dos seus concorrentes; quando as suas communições com as outras possessões nacionaes se virem desembaraçadas dos entraves que as restringem; quando lhe tiverem aberto as Indias Orientaes e permittido extrahir do seu proprio seio o metal que exigiria esta nova ligação…”

A receita economica formulada em seguida sabe a todas as theorias de livre industria e livre cambio do seculo de


  1. Auctor das Notes dominicales, conservadas ineditas na Bibliotheca de Santa Genoveva em Pariz, reveladas e aproveitadas por F. Denis, e mandadas recentemente copiar, bem como traduzir e publicar, na parte relativa a Pernambuco, pelo Inst. Arch. e Geog. do Recife. A residencia brazileira de Tollenare foi em 1817-18, o que o tornou espectador e memorista da mallograda revolução pernambucana.