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DOM JOÃO VI NO BRAZIL
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de Loulé, por quem se interessara vivamente o coronel Maler: “Esse traidor veio a todo o galope a Lisboa para me enganar e sacudir como Fernando na armadilha de Bonaparte” [1].

Accresce que a côrte portugueza, sobre ser composta de elementos no geral de questionavel valia, tratava o Rio de Janeiro, quanto lh’o consentiam, como terra conquistada, encarando-a sempre como um ponto de residencia obrigada, porem ephemera, e desagradavel. Ralados de saudades de Lisboa, os nobres detestavam commummente a capital brazileira. Afóra o Principe, poucos eram os que estimavam o Brazil ou que lhe faziam sequer justiça. Tal amo, tal criado. Marrocos pode dizer-se que reflectia fielmente a opinião dos fidalgos que o protegiam, e suas cartas, espelho dos ditos azedos que fermentavam nas conversas portuguezas, trazem um testemunho irrefutavel d’aquelle estado de espirito, que não é injusto appellidar de collectivo.

Achava Marrocos o ar do Rio infernal, cheio de molestias “pelos vapores crassos e corruptos do terreno e humores pestiferos da negraria e escravatura”; comparava a cidade de São Sebastião com o peor bairro de Lisboa, que era o de Alfama, ou fazendo-lhe muito favor, com o Bairro Alto nos seus districtos mais porcos e immundos [2]; dizia ser “o clima mais pestifero do que o de Cacheu, Caconda, Moçambique, e todos os mais da Costa de Leste, andando sempre o S. Viatico por casa dos enfermos, de dia e de noute as Igrejas continuamente dando signaes de defuntos”, e havendo elle pouco antes sabido que só na egreja da Miseri-


  1. Officio de 6 de Setembro de 1818, no Arch. do Min. dos Neg. Est. de França.
  2. Carta de 24 de Outubro de 1811.