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DOM JOÃO VI NO BRAZIL

viu compellido, por uma revolução rugindo ameaçadora na velha descurada metropole, a abandonar as hospitaleiras plagas do Brazil e regressar a Portugal, sumido no horizonte n’um momento de desespero nacional e de novo entrevisto em sobresaltos de pavor pessoal [1].

Luccock teve uma verdadeira intuição d’esse estado d’alma do soberano ao escrever [2] as seguintes palavras, a proposito da diligencia empregada pelo gabinete de Londres e particularmente por lord Strangford para, depois da paz geral, promover o regresso para a Europa da dynastia que elles proprios tinham decidido a exilar-se: “O frio e fleugmatico politico do Norte raramente calcula o effeito das bellas paizagens sobre o espirito humano; pois de contrario não esperaria que a côrte de Portugal deixasse sua nova residencia. Esta influencia é silenciosa mas poderosa; seu operar é universal e perpetuo, renovado por cada sol nascente e ajudado por cada luar refulgente. Ella ha aqui frequentemente combatido o estimulo do interesse e destruido a persuasão do argumento, e é geralmente mais efficiente nos espiritos que menos se apercebem do seu exercicio. A suggestão da natureza tem contribuido para tornar a côrte portugueza desejosa quasi de alterar a sua designação, e os estrangeiros favorecem-lhe esta inclinação, fallando da côrte do Rio e não mais da de Lisboa.” Roi du Brésil, nunca de outra forma se referia a Dom João o consul geral de França, Lesseps, na sua correspondencia official para Pariz.


  1. Esta descripção da chegada da familia real ao Rio foi dada n’um artigo do auctor na revista fluminense Kosmos, anno I, que aqui é quasi litteralmente reproduzido.
  2. J. Luccock, Notes on Rio de Janeiro and the southern parts of Brazil. London, 1820.