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muitas cousas por descobrir e segredos não achados que pera o diante se hão de manifestar.
Não me posso persuadir a isso; porque tudo está já tão trilhado, que me parece que todos esses segredos são resolvidos e apalpados dos homens, e sómente se tem aproveitado dos que acharam ser de proveito que puzeram em uso.
Essa opinião é nova, e como tal engano manifesto; porque quem vos amostrára, ha hoje trezentos annos, uma canna de que se faz o assucar, e vos dissera que daquella canna se havia de formar, com a industria humana, um pão de assucar tão fermoso como hoje o vemos, te-lo-ieis por cousa ridiculosa; e pelo conseguinte, se vos fosse mostrado um pedaço de panno velho de linho, e vos affirmassem que daquelle panno se havia de fazer o papel, em que escrevemos, quem duvida que o terieis por zombaria? E da mesma maneira, se vos puzessem diante um pouco de salitre, enxofre e carvão, com vos jurarem que daquelles materiaes se havia de compor uma cousa que, chegada ao fogo, derrubasse muros e fortalezas, e matasse homens de muito longe, não me fica duvida que, quanto mais vo-lo affirmassem, menos o crerieis; porque haveis de saber que os primeiros inventores das cousas as acharam toscamente com um principio mal limado, e depois os que lhe succederam as foram apurando, até as pôrem no estado de perfeição em que hoje as vemos.
Confesso o que dizeis, mas tambem não me haveis de negar que essas cousas, de que nos aproveitamos, são criadas e cultivadas com a industria e diligencia dos agricultores e mestres inventores del. las, o que não ha nessa vossa lanugem que se tira de uma arvore nascida por acaso por esses campos; porque o trigo, linho e mais
legumes, de que os homens se aproveitam para seus mantimentos